segunda-feira, 22 de março de 2010

À Luz das Fadas

Há uns dias atrás, enquanto andava a fotografar algumas novidades primaveris que crescem junto a uma casa abandonada, deparei-me com um ser cuja existência eu desconhecia por estas paragens, um alho selvagem branco. Os fins de tarde relampejantes, como aquele, são propícios ao avistamento de fadas nas florestas e nos meios rurais; entenda-se por fadas a ilusão óptica que nos acomete ao lusco-fusco e nos faz crer num campo coberto por pequenas flores que se desvanecem quando focamos melhor o olhar. Havia ido até àquele sítio em busca de fumo-da-terra, uma variedade clara que eu sabia ali existente. Para meu desgosto, toda aquela área tinha sido arrasada pelos herbicidas. Do fumo-da-terra apenas restavam algumas raízes mortas agarradas com afinco a um solo nu e lamacento. Nunca percebi por que razão as pessoas preferem conviver com a desolação e com a sujidade do que com as plantas.
Ao subir a rua, já de regresso a casa, reparei numa centáurea-maior que crescia no jardim abandonado. Quando a estava a fotografar, dei conta de uma alvíssima flor a espreitar-me por entre malvas e criptogâmicas. Era de facto um alho selvagem muito particular, pelo menos do meu ponto de vista. Tratava-se, pois, de um allium neapolitanum, um alho-de-Nápoles. Fotografei-o o melhor que a minha parca habilidade me permitiu. Talvez esta imagem seja tudo o que em breve dele restará, quando alguém determinar que tanto ele como as demais plantas daquela pequena comunidade estão ali a fazer má figura e as regar com herbicida.



Taxonomia:
Nome latino: Allium neapolitanum
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsidas
Ordem: Liliales
Família: Liliaceae
Nomes vulgares: Alho-de-Nápoles, alho selvagem branco, alho-das-valas
Identificação: Planta herbácea perene que pode atingir cerca de 50 cm de altura. Caule dividido em múltiplos pecíolos, corola composta por seis pétalas muito brancas, um carpelo ligeiramente rosado na base, rodeado pelo androceu. Folhas paralelinérveas, lineares e estreitas.
Distribuição: Terrenos herbosos, soalheiros e abrigados. Muito frequente na região de Nápoles e em toda a bacia do Mediterrâneo, Ilha da Madeira e Canárias. Crê-se que seja originária das estepes quirguízias, tal como o alho comum.
Princípios activos: à semelhança de qualquer outra espécie de alho, contém vitaminas A, B1, B2, C e PP, cálcio, ferro, magnésio, pectina e alicina.
Partes usadas: Planta completa
Usos: Todas as espécies de alho selvagem são comestíveis. As pétalas e folhas são um óptimo tempero para saladas. É vermífugo, anti-séptico, combate a gota, o colesterol e a hipertensão arterial. A alicina é um antibiótico eficaz no combate à gripe, razão pela qual o alho foi muito usado no tratamento da gripe espanhola. Também usado como expectorante e febrífugo.
Curiosidades: No Antigo Egipto dizia-se que sete quilos de alho equivaliam a um escravo. Dióscoro, médico grego, e o filósofo Galeno consideravam-no um poderoso antídoto para mordeduras de serpente. Os Romanos dedicavam-no a Marte, deus da guerra. Durante a Idade Média acreditava-se que o alho, de um modo geral, afastava a peste. Na Primeira Guerra Mundial, alguns soldados desinfectavam com ele as feridas. O seu consumo estava interdito aos monges medievais por ser considerado afrodisíaco. Nos florais de Bach, o allium é eliminador do medo. O seu nome provém do céltico all que significa “escaldante”.

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