sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Alecrim, a luz que brota da terra...

«Gosto perdidamente dele»
 Marquesa de Sévigné

Considerado pelos antigos Romanos, Gregos, Egípcios e Árabes como uma panaceia, o alecrim ocupa o topo da lista de plantas medicinais mais utilizadas pelo Homem desde a Pré-História. Presença assídua em casamentos e funerais, o alecrim celebra a vida e a morte na espiral contínua do tempo. O seu aroma intenso e agradável fez com que fosse identificado com os poderes da Luz e usado em rituais mágicos contra os espíritos sombrios que levam a melancolia ao coração dos homens…


Taxonomia

Nome latino: Rosmarinus officinalis L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Lamiales
Família: Lamiáceas
Nomes comuns: Alecrim, alecrinzeiro, alecrim-da-terra. Muitas vezes chamado erroneamente de rosmaninho, uma planta da mesma família e cujas propriedades em quase tudo se assemelham às do alecrim.


Identificação: Arbusto perene, lenhoso, de folhas coriáceas, estreitas e uninérveas verde-escuras na página superior e acinzentadas na inferior. Possui flores bilabiadas, pequenas, entre o branco rosado e o lilás. Toda a planta exala um aroma intenso e canforáceo. Não atinge mais do que um metro e meio de altura.

Distribuição: Nativa das costas mediterrânicas, podemos encontrá-lo em estado selvagem praticamente em todo o lado, nas margens das florestas, nas arribas à beira-mar, nos matagais e ruderais, pois adapta-se bem a qualquer tipo de solo e resiste tanto à seca como à chuva intensa. Muito cultivado em jardins por todo o mundo.

Partes usadas: Folhas (ramos completos) e flores.

Princípios activos: Cânfora, cineol, borneol, linalol, pineno, canfeno, flavonóides, verbenona, ácidos e álcoois triterpénicos, ácido rosmarínico, taninos e resina.

Floração: Março a Outubro.

Usos: Em tisanas, cremes, tinturas, loções, destilações, em aromaterapia e como planta ornamental. Aconselhado no combate a doenças de origem viral, doenças de pele, dores menstruais e de cabeça, como anti-caspa e no combate à queda de cabelo, bem como no caso de doenças do foro neurológico. O alecrim possui propriedades adstringentes, anti-sépticas e anti-inflamatórias, entre outras. É igualmente usado contra a má circulação, na resolução de problemas das vias respiratórias e como anti-depressivo. O mel de alecrim é um excelente tónico hepático, combatendo em particular a cirrose. Para além do seu uso medicinal, o alecrim pode ser utilizado como um anti-traças eficaz e não tóxico. Quando cultivado em hortas, protege as culturas de afídios (pulgões).

Curiosidades: A Rainha Isabel da Hungria era uma acérrima apologista do uso do alecrim, não só em tisanas ou como condimento, mas também em banhos, para os quais preparava uma loção com esta planta, macerando as suas flores em álcool, receita que, segundo ela, lhe havia sido inspirada por um anjo e a qual a curou da gota e do reumatismo.
Carlos Magno ordenou aos seus súbditos o cultivo do alecrim, visto reconhecer-lhe inúmeras aplicações terapêuticas e usos culinários.
Reduzido a pó e misturado com alho e estragão, impede que a manteiga rance.
Para além de combater a caspa, o alecrim escurece o cabelo e trava a sua queda.
Uma antiga crença diz que o alecrim cresce melhor nos jardins das casas governadas por mulheres. Será verdade?

De acordo com o seguinte texto, que aqui transcrevo na íntegra, o alecrim foi durante muito tempo usado como insecticida e, em particular, contra a melancolia. Dou-lhe especial relevo, uma vez que apresenta um retrato fidedigno de alguns fins terapêuticos que no passado eram dados a esta planta, os quais podemos ainda nos dias de hoje descobrir em muitas tradições europeias.

«Tratado Segundo

Das excellencias do alecrim, e sua qualidade.

O alecrim de sua natureza he quente e seco, aromatico e odorifero e, assim, conforta e recrea todas as partes e mebros interiores e exteriores do corpo, alegra, e fortifica os sentidos, gasta as humidades, frialdades, oppilacoens e males contagiosos.
Finalmente o alecrim naõ admite melancolias, tristezas, tremores, nem desmayos de coraçaõ, cujas raizes, ramos, cascas, folhas, e flores tem quasi infinitas virtudes, das quaes diremos as que bem, e fielmente collegimos, e tiramos dos sobreditos Authores; para gloria de Deos Nosso Senhor, e proveito dos homens.
Os gomosinhos mais tenros do alecrim comidos pelas manhãs com paõ, e sal, fortificam a cabeça, e o cérebro, conservaõ a vista alentada, aguda, robusta e forte.
A flor, e folhas do alecrim feitas em po, e trazidas junto ao corpo, affugentaõ os três inimigos do mesmo corpo, que saõ pulgas, piolhos, e porçovejos.
Os sobreditos pos trazidos junto ao corpo, e da banda esquerda, impedem a melancolia, e alegraõ muito o coraçaõ.
As folhas do alecrim bem machucadas, ou mastigadas, e postas sobre a chaga fresca, a curaõ, e cerraõ maravilhosamente.
A flor do alecrim comida em jejum com mel da mesma flor, e huma fatia de paõ quente, conserva muito a saude, e naõ deixa gerar boubas, sangue podre, nem mal de gota, antes pelo contrário, se alguem tiver tal mal, lho tirará.
O alecrim affugenta todo o animal venenoso, cujo fumo serve contra toda a peste e mal contagioso.» (sic)

 

In Fysiognomia e Varios Segredos da Naturesa, de Jeronymo Cortés, traduzido por António da Sylva de Brito, Coimbra, 1728.


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