sábado, 29 de agosto de 2015

Álamos (Populus spp.) - As Árvores da Passagem

Espécie: Populus nigra L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Malpighiales
Família: Salicaceae
Sinonímia: Populus nigra L. ssp.
caudina (Tem.) Bugala;
Populus italica Moench.;
Populus nigra L. var. pubescens Parl.;
Polulus nigra L. var. betulifolia (Pursh.) Torr.
Nomes comuns: Álamo-negro,
choupo-negro, faia-preta,
amieiro-preto, olmo-negro.
Existe confusão com o choupo-tremedor,
de copa mais ampla, tronco acinzentado
 e folhas ligeiramente lobadas.
English name: Black poplar.

Guardiães do submundo, há no seu restolhar a mesma melodia aquática que conduz as barcas dos que partem deste mundo. 

O álamo, também vulgarmente chamado de «choupo», emblematiza a tristeza, o saudosismo e a memória. É tido como guardião do passado, do silêncio das lembranças que teimam em não partir.

Estes mesofanerófitos, de origem europeia e meso-asiática, albergam uma extensa mitologia ligada à morte e à transformação. Os Gregos antigos explicavam o surgimento do álamo-negro através do mito da catábase (descida infernal) de Hércules. Reza a lenda que o herói, ao descer ao submundo, terá protegido a cabeça com uma coroa de álamo-branco; ao ressurgir das trevas infernais, as páginas das folhas voltadas para baixo tinham permanecido brancas, ao passo que as voltadas para cima tinham enegrecido devido à fuligem do reino de Hades.

O álamo-branco, por seu turno, tinha já uma longa história, pois tratava-se de Leuce, transformada em árvore e colocada junto aos portões dos Infernos pelo deus Hades, que dela se havia enamorado. Também uma das Hespérides, filhas de Atlas, tinha sido transformada em álamo como castigo por ter permitido que Hércules roubasse as maçãs do conhecimento.
Os mitos não acabam aqui, várias foram as personagens femininas transformadas nestas árvores incríveis, às quais não ficamos indiferentes.

Comecemos pelo álamo-branco, um mesofanerórito que atinge entre quinze e vinte metros de altura e cujas folhas sub-ovais e lobadas apresentam a página inferior coberta por um indumento branco e suave. Nas árvores jovens, a copa é tendencialmente cónica e o ritidoma acha-se coberto por uma película branca com aberturas em forma de lonsango; à medida que a árvore cresce e envelhece, a copa torna-se ampla e o tronco vai perdendo a sua coloração branca e textura mais ou menos lisa, em prol de um ritidoma castanho-escuro, rugoso e fendido. Nos exemplares jovens e em crescimento, as folhas são mais recortadas e de maior dimensão.

O álamo-negro, apresenta folhas alternas, romboidais, de base plana ou angulosa, e verde em ambas as páginas. De ritidoma castanho-escuro, rugoso e marcado por manchas esbranquiçadas, pode atingir uma altura superior aos vinte e cinco metros, sendo que a copa, mais estreita, adquire a forma de uma coluna. Alguns exemplares, com a idade, assumem copas mais abertas por ramificação lateral. Sendo espécies dióicas, existem álamos femininos e masculinos. Os amentilhos (espigas pêndulas) masculinos são mais curtos, acinzentados e ostentam estames longos e vermelhos. As flores femininas formam amentilhos de maiores dimensões que os masculinos (cerca de 10 cm) e possuem uma coloração esverdeada. Os frutos são cápsulas providas de um penacho propício à dispersão anemocórica (por acção do vento).

Medicinalmente, as diferenças entre estas duas espécies são escassas, sendo, no entanto, preferido o álamo-negro, que por tradição tem sido mais utilizado. O chamado «popúleo» era um creme anti-hemorroidal feito com rebentos de álamo (negro) e toucinho. Com as folhas, depois de secas, faziam-se infusões diuréticas e sudoríferas, pelos seus efeitos depurativos. A casca interna e o alburno destas árvores já foram em tempos usados como farinha em épocas de escassez, a par dos rebentos. As folhas são muito ricas em vitamina C, possuem uma acção antiescorbútica e são também usadas no tratamento de litíases renais. 
Espécie: Populus alba L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Malpighiales
Família: Salicaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Álamo-braco,
choupo-branco,
álamo, choupo, álamo-alvar,
faia-branca, amieiro-branco.
English name: White poplar.
O ritidoma e os rebentos são ricos em resina, óleo essencial e heterósidos, como o salicósido, o populósido e o ácido salicílico, o princípio activo da aspirina. Possuem acção adstringente, diurética, vulnerária, analgésica, anti-hemorroidal, antipirética, emoliente, tónica, sudorífera, balsâmica, anti-séptica, digestiva, urinária e hepática. Podem ser empregues no tratamento de problemas hepáticos, digestivos, dores menstruais, dismenorreia, anorexia nervosa, gota, artrite, reumatismo e intoxicações alimentares. Externamente, quer sob a forma de cremes, tinturas, infusões, decocções ou emplastros, tratam problemas dermatológicos, suavizam e hidratam a pele seca, atenuam dores musculares e auxiliam na cicatrização feridas infectadas. Por inalação de vapores, os rebentos são utilizados no tratamento de bronquites, tuberculose, sinusites, gripes e constipações. As folhas, em particular, são usadas no tratamento de cáries dentárias e problemas ósseos. A decocção dos rebentos, à razão de 30g/litro, resulta num excelente tónico contra a queda de cabelo.

Os rebentos, em particular, eram recomendados por Plínio, o Velho, contra a gota e o reumatismo, e durante a Idade Média e Renascimento fizeram parte de famosas «poções das bruxas» e outras beberagens que tinham por intuito levar em viagem pelos esconsos do Inconsciente quem delas bebesse. 

Em tinturaria, tanto o ritidoma como os rebentos fornecem um pigmento amarelo, quer se trate da álamo-negro, do álamo-branco ou de qualquer outra variedade ou notho-espécie (híbrido).

A água da maceração dos rebentos é um aditivo que estimula o desenvolvimento de quaisquer plantas reproduzidas por estaca.

Na Grécia Antiga, durante os sacrifícios a Zeus, só o uso da madeira do álamo-branco era permitido, o que leva a pensar que a brancura que reveste o tronco desta árvore e o verso das suas folhas era vista com símbolo de pureza. Por outro lado, o maniqueísmo resultante desta coloração de luz e sombra remete-nos para a profunda dicotomia vida/morte e para o renascimento de que a própria natureza é paradigma. Não é, pois, de estranhar que as mitologias clássicas tenham feito ladear o Aqueronte, rio do submundo, de extensas colunatas de álamos. O carácter dual das suas folhas representa o dia e a noite, água e fogo, a passagem entre um estado e outro, entre o aquém e o além.   

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