sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Alentejo - um mistério tornado paisagem

Solos: Maioritariamente ácidos, com excepção dos depósitos de barros da região de Beja (vertissolos e planossolos). Comportam rochas sedimentares detríticas e metassedimentares, vulcânicas eruptivas, vulcânicas plutónicas e algumas rochas carbonatadas. A nível pedológico, o Alentejo é maioritariamente formado por cambissolos, litossolos, luvissolos e pelos podzóis do litoral (Costa Vicentina). Os lençóis freáticos apresentam um moderado teor de sulfatos, com excepção na zona central perto da fronteira com o Algarve.
Clima: No Alentejo encontramos um ombrotipo maioritariamente seco superior/inferior, com alguns locais áridos superiores e outros sub-húmidos inferiores. A  Precipitação média anual na ordem dos 500 mm no interior, podendo alcançar o dobro na Costa Vicentina. A temperatura média ronda os 16ºC.
Relevo: Suave e pouco elevado, com excepção de escarpas graníticas que podem ultrapassar os 400 metros, normalmente encimadas por castelos medievais.
Variedades de Azeitona cultivadas:
  • Alto Alentejo – Arbequina, Azeiteira, Bical Castelo Branco, Blanqueta, Carrasquenha, Cobrançosa, Cordovil de Elvas, Cordovil de Serpa, Galega Vulgar, Galega Grada de Serpa, Galego de Évora, Gama, Hojiblanca, Maçanilha de Tavira, Manzanilla, Picual, Redondil e Verdeal Alentejana.
  • Baixo Alentejo – Arbequina, Bico do Corvo, Blanqueta, Cobrançosa, Cordovil de Elvas, Cordovil de Serpa, Galega Vulgar, Galega Grada de Serpa, Galego de Évora, Gama, Hojiblanca, Maçanilha de Tavira, Redondil e Verdeal Alentejana.

Castelo de Beja (foto: Sara Matos)

Não é fácil definir o Alentejo através de palavras; mais do que um lugar, é um sentimento que só os poetas saberão exprimir, ou não fosse esta a Charneca em Flor de Florbela Espanca.

O Alentejo é antigo e profundo, governado ainda pelos deuses de outrora reunidos no idílico de um quadro impressionista, uma voragem intemporal que agita as estepes cerealíferas que um dia alimentaram o império de Roma.

O olhar dispersa-se por uma miríade de cores, formas e texturas aparentemente impensadas, o que à primeira vista poderá arrogar uma paisagem pouco antropizada e selvagem, mas nada andaria mais longe da verdade, visto que sem a intervenção humana os montados seriam simplesmente landes áridas intercaladas com matos densos de Pinus e Quercus. A existência de alguns dos mais notáveis olivais milenários atesta a domesticação destes solos desde muito cedo. É também nestas planícies fragrantes que se encontram algumas das mais importantes aldeias pré-históricas e os mais grandiosos monumentos megalíticos da Ibéria, testemunhos de uma cultura agrária neolítica, feminizada no Calcolítico pela chegada da Deusa-Mãe das placas de xisto, que com os seus olhos solares, vindos do Mediterrâneo oriental, trouxe uma nova luz à sabedoria dos povos que já aqui viviam. O cultivo da oliveira no território hoje português recua à obscuridade pré e proto-histórica destes primeiros contactos com Fenícios e Gregos e outros povos mediterrânicos que lhes precederam, como o sugerem a oliveira de Ponte de Sôr, com 3 239 anos (século XIII a.C., final do Bronze Médio), e o olival da Horta da Moura (século V a.C., início da II Idade do Ferro), ambos no Alto Alentejo.
Tanto no caso da vinha como da oliveira, os Romanos ter-se-ão limitado a desenvolver a pouco significativa indústria indígena, a partir de castas autóctones e de olivais já plantados. O mesmo ocorreu com o cultivo do trigo e outros cereais. Roma transformou o Alentejo, conquistado arduamente aos Celtas e Lusitanos, num dos primeiros celeiros do império. Os grandes latifúndios que perduraram até aos nossos dias foram delineados pelos agrimensores de Augusto, um importante contributo que veio juntamente com sistemas de irrigação que permitiram domar uma terra que o sol estival quase desertificava. Para além dos cereais, da vinha e da oliveira, o Alentejo detinha uma das principais fontes de cobre e prata. Os seus povoados fortificados estavam em contacto com outros por toda a Ibéria, como nos casos de Leceia e do Zambujal, ambos na Estremadura. A rota dos metais veio a criar uma interdependência entre o Norte e o Sul da península durante a Idade do Bronze, uma vez que do Norte provinha o estanho, essencial para a produção da nova liga metálica. É deste modo que o Alentejo ficará ligado ao reino, primeiro lendário, depois histórico, de Tartessos, formado por diversas cidades-estados que cresciam devido ao comércio com Fenícios, Egípcios, Cartagineses e Gregos, entre outros. Portal da História


Pelas rotas comerciais circulam bens, pessoas e ideias, e no Alentejo cruzavam-se caminhos vindos de todos os cantos da Antiguidade, o que colocava esta região sob as mais diversas influências, em particular as levantinas, que progressivamente transformavam o mundo indígena. Pelas portas alentejanas e andaluzas a Ibéria entrou na História. A chamada escrita do Sudoeste, adquirida pelo povo dos Cinetes no Bronze Final, por contacto com os Fenícios, é considerada a mais antiga da Península Ibérica, porém indecifrável, isto porque embora saibamos o valor fonético de cada um dos caracteres rúnicos que a compõem, já nada conhecemos da língua que lhe subjaz. Há, no entanto, um tipo de linguagem que prevalece, a do simbólico, e há quem veja nas fossetes, covinhas presentes em muitas rochas neolíticas ligadas a complexos religiosos e funerários, algo mais do que parte de um culto da fertilidade feminina. Para Helena P. Blavatsky, estas fossetes representavam uma forma de escrita iniciática e sacerdotal ligada aos cultos ofiolátricos pré-históricos. Esta paisagem alquímica e misteriosa, traçada num «caos arrumado», traz latentes milénios de História que prossegue contada na simbólica dos muitos castelos mágicos empoleirados nos montes graníticos, no conjunto fabuloso de igrejas românicas, góticas, renascentistas e barrocas, nos velhos santões islâmicos convertidos em capelas, e nos dólmenes transformados em altares cristãos, onde o culto das deusas do passado encontra continuidade no da Virgem Maria e onde o bom deus Endovélico assume-se agora na figura de Cristo. Bibliografia Böhm, Jorge; O Grande Livro da Oliveira e do Azeite, 2013. Loução, Paulo Alexandre; Lugares Inesquecíveis de Portugal, 2011. Medina, João; História de Portugal, vol., I e II. Pereira, Paulo; Lugares Mágicos de Portugal, vol. 1, 5, 9 e 13, 2006.

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