sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Figueira (Ficus carica) - A Vara da Serpente


Espécie: Ficus carica l.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Rosales
Família: Moraceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes vulgares: Figueira, figueira-do-reino, figueira-comum,
figueira-de-portugal, figueira-da-europa, bebereira,
figo-de-capa-rôta, figueira-de-baco, figueira-mansa.  
English name: Figtree.

Criptogâmica polémica, árvore bíblica, divina, traiçoeira, primordial. Esperamos descobrir nela uma serpente cósmica, uma «Kundalini» enroscada no eixo do mundo, uma «Uadjit» pronta a desvendar-nos os seus mistérios fecundos sob a forma de flores guardadas em cofres, quais tesouros de um rei egípcio.

A figueira é uma das mais bravias árvores de fruto. São comuns por todo o mundo mediterrânico e meso-asiático, ocupam os ruderais com a sua sombra estival, invadem os baldios, apoderam-se das casas abandonadas. Não há lugar que não as acolha, nem proprietário que não se alegre com a sua chegada.

Este microfanerófito, que raramente vai além dos três metros de altura, quando podado, apresenta uma copa muito ampla e curvada até quase ao solo, o que lhe confere por vezes um aspecto mais arbustivo do que arbóreo. As suas folhas, caducas, são largas, de grandes dimensões e dotadas de lobos arredondados. As flores surgem no interior dos ramos e desenvolvem-se a par da infrutescência que originam, um sícone, composto por numerosos e exíguos aquénios que ficam encerrados no receptáculo, cujas paredes são forradas por flores unissexuais femininas. As flores masculinas ocupam o ostíolo, formando o “olho do figo”, ao passo que as femininas encerram nos seus ovários o verdadeiro fruto da figueira, uma pequena grainha que confere ao figo parte das suas propriedades laxantes. Existem espécies unissexuais femininas que, longe do seu local de origem, só se propagam por estaquia. A reprodução destas árvores, que por cá se tornaram silvestres, é quase uma saga épica e bastante intrigante.

Crê-se que a figueira seja originária da Arábia, onde existe maior número de espécies. As figueiras europeias são variedades "domésticas" que começaram a surgir aquando dos primórdios do seu cultivo no Neolítico meso-asiático, a partir de espécies silvestres dióicas e monóicas aí existentes, conhecidas como «figos-de-esmirna», que exigem a proximidade de «caprifigos» para se reproduzirem. Nas regiões onde a figueira é endémica – grande parte de África, sul da Península Arábica e corredor Sírio-Palestiniano – existe uma vespa sem ferrão, designada Blastophaga psenes, que deposita os seus ovos nos ovários das flores femininas dos caprifigos, através do ostíolo (olho do figo), uma vez que as flores femininas dos caprifigos têm estiletes mais curtos, o que facilita a introdução dos ovos, isto porque a vespa tem também um ovipositor curto. Por este motivo, as figueiras femininas, partenocárpicas amplamente cultivadas hoje em dia, com os seus estiletes compridos têm mais probabilidades de gerar infrutescências (os figos), porque não desenvolvem os ovos dos polinizadores. Nas flores femininas dos caprifigos, as larvas da vespa eclodem e os machos fertilizam as fêmeas. Por serem ápteros, os machos nunca saem do caprifigo, aí acabando por morrer. As fêmeas, aladas e agora fertilizadas, ao saírem pelo ostíolo arrastem consigo o pólen das flores masculinas aí reunidas, com que caprificarão (fertilizarão) as outras figueiras. 

À semelhança da vinha, também de algumas variedades de figo se produz vinho. Falar de figueiras não é muito diferente de falar de castas vinícolas. Existem inúmeras variedades de figo, classificadas basicamente em três tipos, as brancas, as coradas e as escuras. De entre elas as mais cultivadas em Portugal são a «baforeira», o «olho-de-perdiz», a «bêbera branca», a «smirna» e a «real», esta última popularmente designada «abêbora». Algumas variedades conhecidas em termos genéricos por «pingo-de-mel» e «capa-rôta», referem-se aos figos vindimos do final do Verão, geralmente mais doces que os figos lampos que surgem por volta do São João, podendo algumas figueiras frutificar em ambas as épocas e apresentar figos de colorações diferentes, como é o caso da variedade «pingo-de-mel», cujos figos vindimos, de cor esverdeada, são qualitativamente superiores aos lampos, de cor escura.

De grande valor nutritivo e gastronómico, as infrutescências da figueira, os figos, são ricos em proteínas, hidratos de carbono, fibras, cálcio, ferro, cloro, bromo, potássio, fósforo, magnésio, manganês, sódio, vitaminas A, B1, B2, B3 e C. Dotados de propriedades anti-cancerígenas, digestivas, emolientes, béquicas, laxantes, balsâmicas, calmantes, tónicas, galactagogas e depurativas, os figos tantos podem ser consumidos crus, secos ou cozinhados. Os figos secos cozinhados em leite ou água são tradicionalmente empregues como expectorantes e emolientes. O látex branco, rico em amílase, protéase e enzimas, que as ramas e a casca dos figos contêm, é usado topicamente para eliminação de verrugas, calos e picadas de insectos, em particular das abelhas e das vespas, para além de ser o coalhante ideal, quer do leite, quer de bebidas vegetais (soja, arroz, aveia, etc), para o fabrico de queijo e iogurte. Deve, porém, ser usado com precaução, isto porque a sua causticidade pode causar dermatites de contacto e até mesmo queimaduras.

Pelo seu alto valor nutritivo, cerca de 350 calorias/100g, e digestibilidade, o figo adquire especial importância na dieta dos desportistas, dos convalescentes, das crianças, das grávidas e dos idosos, sendo genericamente prescrito em casos de astenia. Também são empregues no tratamento de inflamações internas e externas, problemas pulmonares, urinários e gastrointestinais. A infusão das folhas é utilizada como emenagogo e em casos de tosse, gripes e constipações. O xarope de figo é um laxante suave e eficaz, que não desgasta a flora intestinal, podendo ser tomado em todas as idades. Cozinhados juntamente com outros alimentos, os figos estimulam a produção de leite materno pela sua acção galactagoga.

A par do cultivo da vinha, da oliveira e da tamareira, os figos detinham um valor económico, cultural e alimentar de máxima importância para os Púnicos, em geral, e para os Cartagineses, em particular. Catão, o Censor, acérrimo apologista da destruição de Cartago, convenceu definitivamente o Senado Romano a precipitar a Terceira Guerra Púnica, mostrando a todos os presentes uma cesta de figos frescos, colhidos havia apenas três dias, o que demonstrava que o inimigo estava geograficamente muito próximo. Ou, como escreveu Eça de Queirós em 1893, na Gazeta de Notícias, a respeito da famigerada gula romana, Catão fez decidir a última guerra púnica, mostrando, aos olhos gulosos do Senado, a beleza e o tamanho dos figos de Cartago.

Compreendendo as particularidades reprodutivas das figueiras, que se ocultam dos olhos nus, torna-se mais fácil perceber o mito que as envolve nas mais diversas tradições africanas e euroasiáticas, que fizeram delas altares sagrados, ligados a cultos da fertilidade, mas também à morte e ao renascimento. O seu carácter dual e iniciático equipara-as ao salgueiro-chorão ou ao álamo-branco, e a riqueza dos seus frutos torna-as símbolo de abundância, tal como a vinha e a macieira. Deixados nas covas dos mortos e ofertados aos génios guardiães dos lugares, os figos marcam igualmente presença, física ou simbólica, nos nascimentos e nos ritos de passagem de diversas tribos centro-africanas. Vida e Morte tocam-se nos extremos deste Uroboros. Na Índia, associada à figueira surge-nos a dicotomia Vishnu/Shiva, deuses da Criação e da Destruição, respectivamente, ou, para sermos mais exactos, dois aspectos da Existência. 

Na Grécia Antiga, é pertença simultânea de Deméter e de Dionísio, da vida que os campos férteis evocam e da noite ancestral que guarda os segredos mais profundos da alma humana. No Antigo Egipto, a figueira assume um papel iniciático ligado à fecundidade da mente e do espírito. Abrir o figo é desvendar os mistérios da Criação, da ancestralidade que religa o Homem aos deuses que o engendraram. Por extensão, às folhas desta árvore era atribuído um poder divinatório que só os sicomantes sabiam interpretar. Associada à figueira anda a serpente, guardiã do conhecimento, protectora da realeza. Cleópatra, no intuito de se suicidar e escapar, assim, à humilhação de ser exibida nas ruas de Roma como troféu, terá pedido que lhe levassem, escondida numa cesta de figos, uma cobra-capelo, zoofania da deusa Uadjit, patrona do Baixo Egipto, cuja imagem surgia tutelarmente sob a forma de uma uraeus nas coroas dos faraós.

Com as folhas largas das figueiras cobriram-se Adão e Eva ao tomarem consciência da sua nudez. Escondem, assim, os órgãos sexuais, tal como a figueira esconde os seus, num paralelismo que não podemos ignorar.

Na Grécia Antiga, chamavam-se «sicofantes», reveladores dos figos, aos delatores dos contrabandistas de figos no Egeu, aos traidores e a quem proferisse acusações sem fundamento. Talvez por continuidade desde conceito, a figueira seja vista como a árvore em que Judas se enforcou após ter denunciado Jesus Cristo, revelando-o através de um beijo, o que uma vez mais nos remete para a expressão «revelar o Sykon», caluniar, acusar injustamente, entregar um inocente. 

Entre as tribos africanas do Chade, por exemplo, ainda hoje o látex da figueira é sacralizado nas práticas diárias por associação ao leite. As mulheres Kotoco não só consomem os figos quando estão a amamentar, como perfuram os ramos das figueiras para derramar o látex, num acto de puro mimetismo com a natureza. De facto, e retomando o tema medieval da Teoria das Assinaturas, a figueira apresenta, como acima se viu, propriedades galactagogas, que estimulam o leite materno, actividade bioquímica que a árvore parece querer assinalar mediante o seu látex branco e fluido.
   
Para os Sufi, a figueira e a oliveira apresentam-se como facetas complementares da Natureza, às quais os humanos estão ligados por força da personalidade e da evolução anímica. Nunca é de mais salientar que o simbolismo é uma faceta cerebral, a par da cognição, baseada num sistema de semelhanças e oposições que toma como base a experiência, a cultura e o próprio corpo, como afirma Victor Turner. O valor económico que estas espécies arbóreas sempre detiveram na vida destes povos, faz com que tenham sido desde cedo simbolizadas. Deste modo, misticismo e sobrevivência coexistem numa relação de reciprocidade, sem que se excluam mutuamente.

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