quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Oliveira (Olea europaea) - Templo de Luz

Espécie: Olea europaea L. var. europaea.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Lamiales
Família: Oleaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Oliveira
English name: Olive tree.
Poucas árvores terão uma história tão longa como a da oliveira e seu parente silvestre, o zambujeiro. O termo «árvore» por si só não os define, e o alimento que fornecem é muito mais do que um combustível para corpo. Da iluminação da noite à do espírito, estes seres vegetais têm vindo a afastar as trevas do caminho da humanidade…

A história da oliveira e do zambujeiro é sem dúvida mais poderosa do que qualquer mito que se lhes atribua. São árvores da iluminação, e não apenas em sentido figurado. O azeite, mais do que um simples alimento, já foi o combustível da humanidade até ter sido suplantado pelo petróleo e pela electricidade. 

Pouca diferença existe entre estas duas variedades, a silvestre e a doméstica, pois tratam-se de facto de variantes, não de espécies distintas. A oliveira é um cultivar doméstico com dezenas de variedades bem distintas, muito à semelhança da videira, e para que se mantenha domesticada tem de ser reproduzida por estaca. De um caroço semeado nascerá sempre um zambujeiro, pois volta de imediato à sua condição silvestre.

A oliveira cresce um pouco mais se tiver boas condições para tal, as suas folhas são ligeiramente maiores, igualmente lanceoladas e coriáceas, escuras na página superior e mais claras na inferior, devido à presença de escamas muito ligeiras e macias. As flores, brancas e tetrâmeras, nascem em rácimos entre Maio e Julho. As azeitonas da oliveira, colhidas por volta do mês de Setembro, são mais carnudas que as do zambujeiro, mas igualmente ovóides e negras ou esverdeadas, dependendo do cultivar. Os troncos destas árvores, de um tom cinzento-escuro, tornam-se muito rugosos e recticularmente fendidos com a idade, e não é raro encontrarmos exemplares centenários, como o da foto, já que esta espécie pode ultrapassar os dois mil anos, como ocorre com frequência no Médio Oriente, de onde a oliveira doméstica é originária.

O valor nutricional e medicinal do azeite faz dele o ouro líquido da dieta mediterrânica. Rico em fitosteróis, carotenóides, ésteres glicéricos (ácidos oleico, linoleico, esteárico e palmítico) e vitamina E, o azeite cru é usado no combate ao colesterol. O seu aquecimento provoca a perda e a degradação dos seus princípios activos. As folhas possuem grande valor medicinal e cosmético. Ricas em luteol, manitol, olivol, iridóides, ácidos fenólicos, saponósidos, etólidos, cálcio e taninos, são empregues pela sua acção emoliente, suavizante e protectora. A oliveira é mais produtiva que o zambujeiro, isto porque o seu fruto é maior, no entanto a qualidade do azeite de zambujeiro não lhe fica atrás.

O uso cosmético do azeite e do extracto das folhas é muito alargado, pela sua acção sintetizadora do colagénio. A par da cera de abelha, do óleo de amêndoas-doces, da lanolina e de óleos essenciais, o azeite é desde longa data usado como base para todo o tipo de cremes corporais e de rosto, quer medicinais, quer de uso corrente, além de sabonetes e máscaras hidratantes anti-envelhecimento.

Na época clássica, o azeite que circulava em ânforas por todo o Mediterrâneo, raramente era empregue na alimentação, onde eram mais frequentes óleos piscícolas como o liquamen e o alec. Para o azeite estavam reservadas outras funções. Além do seu uso cosmético, em cremes e unguentos, era comummente empregue na iluminação, de que as belas lucernas são testemunho.  

Paz, sabedoria, iluminação, fecundidade, pureza, vitória… O seu significado simbólico acha-se intrinsecamente ligado à sua principal função, a de iluminar. Presentes no paraíso dos bem-aventurados, as oliveiras trazem inscrito nas suas folhas o verdadeiro nome de Deus, segundo crêem os povos meso-orientais. Foi um ramo de oliveira que a pomba branca levou a Noé para anunciar a existência de terra; a cruz de Cristo foi feita da madeira desta árvore e da do cedro, o que nos remete de imediato para a soma entre as ideias de paz/pureza e imortalidade. 

Ligada aos Mistérios de Elêusis, na Grécia Antiga, era consagrada a Atena, deusa da sabedoria, representada por uma coruja, pássaro noctívago que penetrava nos santuários a coberto da escuridão para beber o azeite das luminárias, prova de que o mundo natural e o espiritual por vezes fundem-se e confundem-se… Se olharmos para o extremo asiático, descobrimos que toda esta simbólica encontra fortes paralelismos.

Em Roma, onde a oliveira já existia pelo menos desde os primórdios da Monarquia, na época de Tarquínio Prisco era consagrada aos deuses capitolinos, Júpiter, Juno e Minerva, abarcando os significados de vitória, fecundidade e sabedoria. Talvez pela sua ligação a Júpiter, deus do Raio, se diga que os ramos das oliveiras acalmam tempestades.

E porque o mundo invisível é superior a crenças e a dados científicos, vamos encontrar três pastorinhos em Fátima, no ano de 1917, a conversar com a Virgem que desceu sobre uma azinheira num olival. Na Antiguidade, uma outra virgem, ou talvez a mesma, era retratada sobre uma oliveira a falar às crianças. Tratava-se de Cíbele, a deusa representada por um meteorito negro, o mesmo que foi levado de Pessinunte, na actual costa da Turquia, para Roma, durante a Segunda Guerra Púnica, pois só Cíbele tinha um poder capaz de derrotar Aníbal e defender a República. 

O aspecto sagrado depressa evoluiu para um cariz apotropaico. O azeite afugenta o mal, tal como a luz que proporciona. A magia popular faz dele um ingrediente indispensável para revelar o quebranto e toda uma sorte de enguiços, para desfazer e fazer feitiços, para «amarrar» os espíritos das divindades aos lugares e assim consagrá-los. Derramar azeite por acidente é mau presságio e deve ser corrigido traçando sobre ele uma cruz de sal. Talvez por este motivo se chame «azeiteiro» ao diabo, o que espalha azeite para atrair má sorte. Com azeite reza-se, baptiza-se, benze-se, e no passado a colheita da azeitona atingiu requintes verdadeiramente iniciáticos. Elegia-se a mordoma, o alferes, criavam-se rituais de acordo com as tradições, celebrava-se a «adiafa», expressão de origem árabe que remete para «festejo», realizava-se a tiborna, almoço dos lagareiros que celebrava o fim da extracção do azeite.

Portugal é um dos maiores produtores de azeite. De norte a sul do país encontram-se azeites com diferentes graus de acidez, com texturas e aromas distintos. Um dos melhores é o judaico, o Kosher, produzido em Belmonte, um azeite muito suave obtido a frio através de azeitonas peladas e descaroçadas.

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