sábado, 5 de março de 2016

Uma Primavera Abortada

Durante a última semana, a Câmara de Cascais - ou qualquer outra entidade que gasta o dinheiro público em empreitadas contra o público - decidiu fazer uma "limpeza" na zona da velha Bateria Militar. E limpou, de facto, espécies endémicas de valor medicinal e ecológico, que tinham feito daquele espaço um refúgio contra a pressão do urbanismo desregrado. 

Sem qualquer critério selectivo, os carrascos eliminaram uma boa parte das espécies catalogadas no Herbário Virtual da Vila de Parede. Entre estas espécie contam-se o hipericão (Hipericum perforatum), espargos-bravos (Asparagus albus e A. Aphyllus), melilotos (Melilotus albus, M. officinalis e M. indicus), joina-das-areias (Ononis viscosa), borragem (Borago officinalis), erva-prata (Paronychia argentea), alcachofras (Cynara scolymus e C. humilis), fel-da-terra (Erythraea centaurium), gerânio-peludo (Geranium rotundifolium), linho-de-inverno (Linum usitatissimum), cenoura-selvagem (Daucus carota), verbena (Verbena officinalis), trovisco (Daphne gnidium), verbasco (Verbascum sinuatum), salva-dos-caminhos (Salvia verbenaca), malvas (Malva sylvestris e M. multiflora), carlina (Carlina corymbosa), centáurea-calcitrapa (Centaurea calcitrapa), alhos-selvagens, cardos, galactites, crepis e todo um manancial florístico que começava a despertar, a trazer alimento às abelhas e cor às nossas vidas saturadas de Inverno e frio. 
Antes
Depois...
A Vila de Parede viu, assim, a sua Primavera abortada.

As amendoeiras, que estavam ainda em floração, também não escaparam à serra-eléctrica. Nem o branco das flores lhes valeu. As fotos mostram como era e como está, uma obra-prima do mau-gosto e da estupidez humana. 

Chasmanthe aetiopica
Mas devo rectificar o que acima disse, pois não foi uma devastação aleatória, não; houve um seleccionamento - um único - de uma espécie alógena e invasora, o lírio-do-nilo (Chasmanthe aetiopica), que foi poupada pela sua graciosa aparência e que reina agora numa paisagem vazia e que não lhe pertence. Sim, os humanos comportam-se perante as plantas da mesma forma que se comportam perante outros humanos, seleccionam-nas de acordo com critérios meramente estéticos, não conseguindo sequer intuir de onde vem o ar que respiram, a comida que comem, a água que bebem e os medicamentos que os aliviam em horas de aflição. 

Onde antes havia verdejantes alpistas (Phalaris spp.) e alexandres (Smyrnium olusatrum), há agora um rasto de destruição, como se toda a zona tivesse sido varrida por um tornado.

Como era...
As abelhas e os zângãos ainda por lá andam, à deriva naquele mortório, em busca do tão esperado néctar que há poucos dias tinha brotado.
Como está...
E assim foi a "limpeza". Para trás ficou o lixo: garrafas de vidro e plásticos enfeitam o chão nu. O ser humano sempre apreciou flores de plástico e imitações... Deve ser por isso que os plásticos foram mantidos. Como bem diz o povo, para tudo há uma razão...






Agora é a lei do mais forte. As plantas invasoras têm o terreno aberto e disseminar-se-ão rapidamente como células cancerígenas, minando o caminho à flora local. Uma história já bem conhecida. Mas o que esperar de profissionais que ao serem chamados para cortarem uma palmeira doente, cortaram um cedro?

Boa Primavera!

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