Embora os produtos apícolas sejam cada vez mais procurados pela sociedade dos nossos dias, pouco se tem feito em Portugal para minimizar os efeitos nocivos inerentes à industrialização e ao aumento do volume de produção no sector. Vive-se, hoje, um clima de renascimento da Apicultura, relacionado com a busca de modos de vida alternativos, mais saudáveis e voltados para a Natureza por tanto tempo esquecida. Todavia este “despertar social” adquire, por vezes, contornos massivos, com os quais nem sempre é possível lidar sem que a qualidade dos produtos decaia.
Ainda que o mel produzido no nosso apiário não seja um caso excepcional, há que dizer que nem todos os apicultores procedem de forma honesta relativamente à sua comercialização enquanto substância não-manipulada. Infelizmente, muitos são os casos de falsificação do mel, recorrendo à adição de amido, fécula, farinha ou até mesmo de gesso! - O decreto-lei nº 35876 de 18-8-1946 proibia a adição de quaisquer substâncias conservantes ao mel. Por outro lado, quase não há investimento em informação e sensibilização dos consumidores relativamente às características e virtudes deste alimento natural. O mel puro cristaliza quando submetido a temperaturas mais baixas, pelo que solidifica durante o Inverno. Muitas pessoas, ao verem-no cristalizado já não o compram, julgando-o fora de validade. Perante esta situação, alguns apicultores optam por queimar o mel para que este se mantenha sempre líquido. Este procedimento provoca a evaporação dos óleos essenciais, atribuindo ao mel um estranho gosto a melaço, para além de perder todas as suas propriedades vitamínicas e de ficar convertido em açúcares simples não tolerados por diabéticos. O mel, conforme é colhido, apresenta açúcares digeridos pela acção da saliva das abelhas que contém insulina, ou seja, transformados em dextrose e levulose (frutose). A dextrose é quimicamente um carboidrato simples, metabolizado automaticamente pelas nossas células para produção de energia. Daí que o mel, embora sendo um alimento muito energético, não engorda, o que o torna no substituto preferencial do açúcar nas dietas de emagrecimento.
Existem em Portugal diversas qualidades de mel que variam de acordo com a área de captação de recursos abrangida pelos apiários. No Norte, os méis são maioritariamente escuros, tixotrópicos e de paladar forte, devido à abundância de urze. Na Beira Interior, a presença do rosmaninho torna o mel claro, por vezes quase branco, dotado de um aroma suave e frutado. Na Região Centro produzem-se méis de eucalipto e multiflora, de tons avermelhados. A Sul predomina o mel de laranjeira, muito claro e aromático.
Alguma legislação tem vindo a ser aprovada no sentido de tornar a apicultura portuguesa mais competitiva – a primeira lei portuguesa referente à actividade apícola foi o decreto nº 20417 de 21-10-1931 e destinava-se a promover a produção de mel nacional –, mas muito do que se passa no panorama apícola português é ainda desviado do controlo governamental por razões económicas ligadas ao desenvolvimento tecnológico, como no caso concreto do uso de pesticidas químicos nos pomares, o que põe em risco a vida das abelhas e a qualidade do mel.
Imagens: Produtos do nosso apiário (mel de Eucalipto e multiflora).