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domingo, 20 de setembro de 2015

Carvalho - O Arauto do Outono

Mítico guardião do conhecimento, altar de deuses, morada feérica, avatar druídico, templo. O carvalho faz-se acompanhar por uma extensa simbologia céltica, de raiz indo-europeia, ligada à sabedoria, à realeza, à força, à protecção e à estabilidade.

É desde há muito a madeira favorita dos vinicultores, usada nesse longo processo alquímico que é evolução de um vinho. Mago do tempo, o carvalho é detentor de um estatuto ímpar no mundo da Enologia, mas o seu valor não fica por aqui, e foi na religiosidade dos povos europeus e na sua medicina popular que estas magníficas árvores deram os primeiros passos na vida do Homem. Algumas das suas propriedades curativas migram para os vinhos na forma de ésteres, lactonas, taninos e fenóis, estruturando-os, impregnando-os de novos aromas, amaciando-os, transformando-os. Vamos tentar conhecer um pouco mais sobre estas espécies que chegam com frequência às nossas mesas de forma velada.

Guardião ancestral, coroa qualquer paisagem onde caia a sua semente. Podendo ultrapassar os imponentes trinta metros de altura, chega a tornar-se num megafanerófito ao longo dos séculos que lhe são dados viver. De tronco robusto e ritidoma acinzentado, escuro e fendido, apresenta folhas decíduas ou marcescentes, consoante a idade e a espécie, verde-claras quando jovens, alternas, sinuado-lobadas, com lobos arredondados ou obtusos, e pecioladas. Trata-se de uma espécie monóica, com flores masculinas e femininas no mesmo exemplar. Também à semelhança de outras espécies do género Quercus sp., as flores do carvalho surgem antes do Verão e organizam-se em espigas pendentes (amentilhos), tendo as femininas duas a três flores. O fruto, maduro no Outono, é uma bolota oblonga e clara, inserida numa cúpula de escamas quase planas ou imbricadas como se de telhas se tratassem. Os carvalhos podem apresentar excrescências vermelhas, os chamados «bugalhos», provocadas pela picada de um insecto do género da cochinilha, os quais são ricos em taninos e usados em tinturaria, no curtimento de peles e na obtenção de corantes alimentares.

Europeus silicícolas ou calcícolas, têm preferência por terrenos com certa humidade eprofundidade, e podem ser encontrados desde as Ilhas Britânicas, das quais são emblemáticos, até à Anatólia, onde eram venerados pelos Celtas Gálatas. Segundo Estrabão, o «Drunemeton» era um bosque-templo formado por carvalhos, onde se reuniram as três tribos celtas gálatas, os Tolistobogos, os Tectósagos e os Trocmos. Em Espanha encontramos uma «Nemetóbriga», bosque supremo, e ao longo do Ocidente europeu deparamo-nos diversas vezes com o radical «nemeton», carvalhais sagrados, que encontram eco nas mitologias e nas lendas locais e são corroborados pela Arqueologia, através do estudo das sementes (Palinologia), bem como pela literatura clássica e medieva.

Seja qual for a sua espécie, o carvalho tem muito para oferecer. O ritidoma dos ramos jovens, colhido em Maio, quando é facilmente destacável, é a parte mais utilizada para fins terapêuticos, podendo ser tomado em pó, em decocção ligeira, ou diluído em tinturas ou vinhos. A fusão dos princípios activos que comporta (taninos, a pectina, o cálcio, os ácidos gálico e elágico, e a fluroglucina) constitui em antídoto eficaz para certos tipos de veneno, como a nicotina (alcalóide), servindo como purificante em casos de intoxicação tabagista e retardando a absorção de alcalóides. Não deve ser tomado juntamente com medicação, uma vez que também retarda o efeito desta. Fortemente adstringentes, o ritidoma, as folhas secas, os bugalhos e as bolotas, são empregue em casos de disenteria aguda e incontinência urinária. Como tónico, expectorante, hemostático, antipirético, descongestionante e anti-séptico, é usado no tratamento de gripes, constipações, tosses, tuberculose, leucorreia, bronquite, faringites, desordens hepáticas e febres.

Externamente, em decocção, tintura ou cataplasma quente, é empregue em casos de acne e demais erupções cutâneas, hemorroidal, inflamações genitais e transpiração excessiva dos pés. As folhas podem ser usadas para acelerar processos de compostagem para enriquecimento de terrenos, e a sua seiva tem sido empregue como repelente de insectos e lesmas em agricultura biológica!

A essência do carvalho é uma das mais utilizadas na terapia por Florais de Bach, restituindo aos pacientes a calma, a força e o equilíbrio perdidos com a sobrecarga laboral e emocional a que a sociedade contemporânea nos sujeita.

Usados em tinturaria, os bugalhos fornecem vários tipos de pigmento consoante o mordente utilizado. Misturados com óxido de ferro, deles obtém-se uma coloração negra; se misturados com óxido de cobre, resulta num tom dourado; se usado alumínio, resulta em castanho; e com sulfato de ferro obtém-se um tom arroxeado.

Pouco apreciado, porém provedor em épocas de escassez, como as que se faziam sentir regularmente nas sociedades pré-industriais. A bolota do carvalho, muito rica em fécula, era laminada e usada em substituição dos frutos secos, ou farinada e empregue em panificação sempre que os cereais rareavam. A abundante presença de taninos confere-lhe um sabor amargo, o que era neutralizado pela sua demolha na água corrente de um rio ou pelo seu enterramento temporário.  À semelhança dos frutos de outras fagáceas colhidos no Outono, as bolotas eram por norma envoltas num pano de linho e enterradas em leitos aquáticos durante todo o Inverno. Também do tronco do carvalho se extraía uma goma comestível, usada em frituras.

Uma das espécies mais usadas em tanoaria para vinificação e estágio é a Q. rubor, o carvalho-roble, também conhecido por carvalho-inglês ou alvarinho, talvez a mais taninosa de entre as madeiras empregues em enologia, quer em barricas quer sob a forma de lascas para maceração ou ainda como essência. Em latim, o termo rubor designa simultaneamente «carvalho» e «força», que pela via popular originou em Português o adjectivo «robusto». De facto, a robustez é um dos maiores predicados desta árvore, cuja longevidade está intrinsecamente associada à sabedoria. Na Europa, os dois exemplares mais antigos encontram-se na Letónia e a Bulgária, com idades acima dos mil e quinhentos anos.

Certos mitos encontram fundamento na realidade, e assim é no caso do carvalho, do qualsempre se disse que atraía e neutralizava os raios da fúria de Zeus, durante as tempestades que este deus olímpico abatia sobre a humanidade. Na verdade, esta árvore funciona como um para-raios eficaz e natural, espécie de fio-terra que neutraliza a electricidade canalizando-a para o solo. Talvez por esta razão ainda hoje exista o costume de tocar a madeira para afastar as más energias invocadas inadvertidamente durante as conversas. Esta actividade protectora assumiu ao longo dos tempos um carácter mais amplo, mágico e apotropaico. Como genius loci, o carvalho era presença assídua nas casas brasonadas e acreditava-se que o seu derrube comportaria a desgraça da família por ele protegida. Esta tradição, transversal ao mundo europeu, celebrizou-se numa profecia feita a uma família escocesa, os Hay, proprietários das terras de Errol em Perthshire. Dizia-se que uma vez morto o carvalho, «cresceria erva sobre a lareira» familiar. No início do século XIX, o abate da árvore centenária coincidiu com a ruína e subsequente venda da propriedade dos Hay. Coincidência? Episódio semelhante ter-se-á passado em Inglaterra no século XVII, quando em Outubro de 1649 os enviados de Cromwell à propriedade de Woodstock, logo após a decapitação do rei Carlos I, supostamente desencadearam uma série de fenómenos de poltergeist e aparições fantasmagóricas por terem abatido o enorme carvalho do qual o falecido rei tanto gostava.

Investido num papel mágico-religioso, o carvalho funciona simultaneamente como templo e axis mundi, um eixo de comunicação entre o plano dos deuses e o da humanidade. Relacionado com os mundos feérico e divino, esta árvore, cujas raízes penetram profundamente na esfera telúrica, parece ter tido uma outra origem que não a terrena, estando quase sempre associada aos deuses da tempestade, do raio e do trovão. Na Grécia Antiga era governada por Zeus, em Roma por Júpiter, no mundo eslavo era pertença do deus Perunú, na Prússia pertencia a Ramowe, entre os celtas ibéricos era teofania da deusa Drusuna. Ao longo da faixa ocidental europeia, o carvalho é morada do povo das fadas e avatar druídico. A palavra druida, de acordo com Plínio, o Velho, radica no vocábulo grego «drus», carvalho, ao qual se acrescentou o sufixo «vide», que parece derivar do sânscrito «veda», ciência, conhecimento, o que não é estranho, visto as línguas célticas derivarem, assim como o Latim e o Grego, do Indo-europeu, que por terras europeias assentou progressivamente num substracto linguístico autóctone neolítico, à medida que os grupos indo-europeus foram chegando vindos do Vale do Indo e das estepes russas. Assim, «druida» significará algo como carvalho sábio ou homem-carvalho. Neste ponto, o carvalho e a videira entrelaçam-se não apenas nos vinhos que engendram mas também foneticamente, já que ambos transportam nos seus nomes o imago da sabedoria divina concretizada no Homem.  

Longe de ser visto apenas como uma árvore, tudo quanto envolvesse o carvalho eraritualizado pelos celtas. Exemplo disto é a recolha do visco, que nas Ilhas Britânicas é conhecido por mistletoe. Esta planta parasítica, que finca os seus rizóides nos troncos destas árvores, era cura para a infertilidade e antídoto para todos os venenos. A sua apanha era feita por um arquidruida, de túnica branca, munido de uma foice de ouro, ao sexto dia da Lua nova, conforme exigia a sacralidade de ambas as plantas em causa. Ainda hoje esta relação do visco com os rituais de fertilidade encontra uma reminiscência no beijo que por tradição os casais devem dar sob o mistletoe na noite de Natal para que o seu amor seja eterno.

O porte majestoso e a folhagem decídua ou marcescente do carvalho remete-nos para o eterno devir entre a Vida e a Morte. Os jardins plantados sob a égide do Romantismo davam preferência a estas árvores altas, sombrias, centenárias, de ramos retorcidos, sugestivamente fantasmagóricos, capazes de criar verdadeiros cenários de contos de fadas passados nas hipnóticas trevas dos bosques medievais. Diversos artistas, desde escritores a escultores, inspiraram-se no carvalho extraindo dele toda uma dialéctica baseada na fantasia e no sentimento de ancestralidade. Exemplo disto são algumas das obras do pintor Caspar David Friedrich, das quais a mais emblemática seja provavelmente o Monastery Graveyard in the Snow, pintado entre 1817 e 1819, em plena época romântica, em que a imagem das ruínas adquiriu um papel estético e esotérico sem precedentes.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ciprestes (Cupressus spp.) - Arquétipos do Eterno


Espécie: Cupressus macrocarpa Hartw. Ex. Gordon.
Divisão: Gimnospérmicas/Pinophytae
Classe: Pinatae
Ordem: Pinales
Família: Cupressaceae
Sinonímia: Callitropsis macrocarpa (Hartw.) D. P. Little.
Nomes vulgares: Cipreste-de-monterey.
English name: Monterey cypress.

A persistência da sua folhagem densa e escura evoca a eternidade; a sua forma colunar ou piramidal eleva o espírito humano até à morada dos deuses superiores. O cipreste fala-nos de morte iniciática, da perenidade do espírito sobre a matéria corruptível. Na sua presença assumimos o papel de um neófito que desce os primeiros degraus em direcção a um céu interior. Somos imortais na escalada do conhecimento.

O Cupressus sempervirens (cipreste-comum) teve por berço o Médio Oriente e o Mediterrâneo Oriental. O seu congénere C. macrocarpa (cipreste-de-monterey), por seu lado, veio da longínqua Califórnia. De crescimento colunar ou piramidal, de ramos erectos ou patentes, apresentam troncos acinzentados e com fissuras verticais que não descamam. As folhas são opostas, escamiformes, obtusas, rijas e verde-escuras, compactadas em torno dos ramos. Monóicos, apresentam flores femininas globosas que se encontram nas extremidades dos ramos mais curtos; as masculinas formam estróbilos amarelo-esverdeados dispostos nas extremidades dos ramos maiores. Os frutos são pequenas gálbulas globosas, formadas por dez a catorze escamas poligonais, que atingem a maturidade ao segundo ano, adquirindo uma tonalidade amarelada. Cada escama contém até vinte sementes aladas. O cipreste-de-monterey é facilmente moldável pelo vento e adquire, quando adulto, uma copa ampla e de topo achatado, perdendo os ramos inferiores à medida que se desenvolve, ao passo que o cipreste-comum mantém a sua copa colunar ou piramidal, podendo abrir bastante ou manter-se compacta em torno do tronco, praticamente desde a base.


Espécie: Cupressus sempervirens L.
Divisão: Gimnospérmicas/Pinophytae
Classe: Pinatae
Ordem: Pinales
Família: Cupressaceae
Sinonímia: Cupressus horizontalis Mill.;
Cupressus patula Spadoni;
Cupressus sempervirens L. var. numidica Trab.
Nomes vulgares: Cipreste-comum,
cipreste-de-itália,
cipreste-dos-cemitérios, cipreste-mediterrânico.
English name: Italian cypress.

A nível medicinal, o cipreste-comum foi desde sempre usado como depurativo. A sua resina possui propriedades béquicas e rubefacientes. O óleo essencial é rico em taninos, hidrocarbonetos, cânfora, ácido fórmico, pineno, canfeno e álcool terpénico. Não deve ser tomado durante a gravidez, lactância e em caso de distúrbios nervosos.

O ritidoma e as folhas são colhidos na Primavera, quando a árvore retoma o fluxo da sua seiva. Possuem propriedades adstringentes, antibacterianas, anti-fúngicas, anti-hemorroidais, vasoconstrictoras e diuréticas. A sua decocção é empregue em problemas urinários, rectais, uterinos e da próstata. Externamente é empregue sob a forma de óleo no tratamento do hemorroidal. A decocção das ramas e dos frutos verdes é usada externamente em compressa anti-acnéicas, gargarejos, inflamação e sangramento das gengivas, chagas, úlceras e transpiração excessiva dos pés (sudorese podal). A tintura dos frutos é utilizada na remoção de verrugas.
Os frutos são adstringentes, antibacterianos, tónicos circulatórios, empregues no tratamento de varizes, metrorragias, prostatites, edemas e enurese nocturna. Mitigam problemas respiratórios (inalações do óleo essencial), tosses, bronquite e asma.
   
Menos usado é o cipreste-de-monterey, contudo é útil no alívio do reumático. Por norma recorre-se à decocção ligeira das ramas, cerca de 30g/litro.

As origens míticas destas árvores são inúmeras e todas elas intimamente relacionadas com a morte. Uma das mais antigas fala-nos da morte trágica e temporã de Ciparissa, filha do Vento Norte, Bóreas, que para os Trácios havia sido um importante rei celta. O rei terá plantado um cipreste, até então desconhecido, sobre o túmulo da filha, e doravante esta árvore passaria a representar os mortos.

Outro mito conta-nos a história de um belo rapaz, Ciparisso, protegido de Apolo, segundo umas versões, de Zéfiro ou Silvano, segundo outras, que se fazia acompanhar por um cervídeo domesticado, pertença de Apolo. Certa noite, por equívoco, o jovem alvejou o animal, que acabou por morrer. O profundo desgosto que o acometeu fê-lo chorar até o seu corpo se transformar em árvore e as suas lágrimas em resina. Desde mito parece derivar o topónimo «Chipre», ilha onde os ciprestes são emblemáticos.

Um outro mito narra a morte trágica das filhas do rei Etéocles da Beócia, as «Ciparissas», afogadas numa fonte durante uma festa em honra de Deméter, e transformadas em árvores por piedade de Geia.

Dedicados a Saturno e a Hades, os antigos Gregos colocaram os ciprestes sob a alçada de Hércules e atribuíram-lhes incontáveis poderes mágicos ligados à ressurreição e aos Mistérios Órficos do eterno retorno e da negação da morte.  A longevidade destas árvores, que chegam a ultrapassar os dois mil anos de idade, e a incorruptibilidade da sua madeira, resistente ao ataque dos bichos, muito contribui para que sejam associadas às esferas do Eterno e do Imutável. Por esta razão, as leis eram, na Grécia Clássica, escritas em madeira de cipreste, como garante da perenidade das mesmas. Também os ataúdes dos guerreiros, assim como os sarcófagos faraónicos, eram talhados desta madeira que os transportaria para a Eternidade.

Como mãos-postas em oração pelas almas já idas, ainda hoje enfeitam os nossos cemitérios como enfeitaram os da Antiguidade e os islâmicos, remetendo os visitantes para as virtudes do silêncio, da meditação e da elevação do espírito, as mesmas que presidem às formas arquitectónicas colunares que encontramos desde a Antiguidade até ao seu clímax nas catedrais góticas.

Ler mais sobre o óleo essencial de cipreste...

Figueira (Ficus carica) - A Vara da Serpente


Espécie: Ficus carica l.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Rosales
Família: Moraceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes vulgares: Figueira, figueira-do-reino, figueira-comum,
figueira-de-portugal, figueira-da-europa, bebereira,
figo-de-capa-rôta, figueira-de-baco, figueira-mansa.  
English name: Figtree.

Criptogâmica polémica, árvore bíblica, divina, traiçoeira, primordial. Esperamos descobrir nela uma serpente cósmica, uma «Kundalini» enroscada no eixo do mundo, uma «Uadjit» pronta a desvendar-nos os seus mistérios fecundos sob a forma de flores guardadas em cofres, quais tesouros de um rei egípcio.

A figueira é uma das mais bravias árvores de fruto. São comuns por todo o mundo mediterrânico e meso-asiático, ocupam os ruderais com a sua sombra estival, invadem os baldios, apoderam-se das casas abandonadas. Não há lugar que não as acolha, nem proprietário que não se alegre com a sua chegada.

Este microfanerófito, que raramente vai além dos três metros de altura, quando podado, apresenta uma copa muito ampla e curvada até quase ao solo, o que lhe confere por vezes um aspecto mais arbustivo do que arbóreo. As suas folhas, caducas, são largas, de grandes dimensões e dotadas de lobos arredondados. As flores surgem no interior dos ramos e desenvolvem-se a par da infrutescência que originam, um sícone, composto por numerosos e exíguos aquénios que ficam encerrados no receptáculo, cujas paredes são forradas por flores unissexuais femininas. As flores masculinas ocupam o ostíolo, formando o “olho do figo”, ao passo que as femininas encerram nos seus ovários o verdadeiro fruto da figueira, uma pequena grainha que confere ao figo parte das suas propriedades laxantes. Existem espécies unissexuais femininas que, longe do seu local de origem, só se propagam por estaquia. A reprodução destas árvores, que por cá se tornaram silvestres, é quase uma saga épica e bastante intrigante.

Crê-se que a figueira seja originária da Arábia, onde existe maior número de espécies. As figueiras europeias são variedades "domésticas" que começaram a surgir aquando dos primórdios do seu cultivo no Neolítico meso-asiático, a partir de espécies silvestres dióicas e monóicas aí existentes, conhecidas como «figos-de-esmirna», que exigem a proximidade de «caprifigos» para se reproduzirem. Nas regiões onde a figueira é endémica – grande parte de África, sul da Península Arábica e corredor Sírio-Palestiniano – existe uma vespa sem ferrão, designada Blastophaga psenes, que deposita os seus ovos nos ovários das flores femininas dos caprifigos, através do ostíolo (olho do figo), uma vez que as flores femininas dos caprifigos têm estiletes mais curtos, o que facilita a introdução dos ovos, isto porque a vespa tem também um ovipositor curto. Por este motivo, as figueiras femininas, partenocárpicas amplamente cultivadas hoje em dia, com os seus estiletes compridos têm mais probabilidades de gerar infrutescências (os figos), porque não desenvolvem os ovos dos polinizadores. Nas flores femininas dos caprifigos, as larvas da vespa eclodem e os machos fertilizam as fêmeas. Por serem ápteros, os machos nunca saem do caprifigo, aí acabando por morrer. As fêmeas, aladas e agora fertilizadas, ao saírem pelo ostíolo arrastem consigo o pólen das flores masculinas aí reunidas, com que caprificarão (fertilizarão) as outras figueiras. 

À semelhança da vinha, também de algumas variedades de figo se produz vinho. Falar de figueiras não é muito diferente de falar de castas vinícolas. Existem inúmeras variedades de figo, classificadas basicamente em três tipos, as brancas, as coradas e as escuras. De entre elas as mais cultivadas em Portugal são a «baforeira», o «olho-de-perdiz», a «bêbera branca», a «smirna» e a «real», esta última popularmente designada «abêbora». Algumas variedades conhecidas em termos genéricos por «pingo-de-mel» e «capa-rôta», referem-se aos figos vindimos do final do Verão, geralmente mais doces que os figos lampos que surgem por volta do São João, podendo algumas figueiras frutificar em ambas as épocas e apresentar figos de colorações diferentes, como é o caso da variedade «pingo-de-mel», cujos figos vindimos, de cor esverdeada, são qualitativamente superiores aos lampos, de cor escura.

De grande valor nutritivo e gastronómico, as infrutescências da figueira, os figos, são ricos em proteínas, hidratos de carbono, fibras, cálcio, ferro, cloro, bromo, potássio, fósforo, magnésio, manganês, sódio, vitaminas A, B1, B2, B3 e C. Dotados de propriedades anti-cancerígenas, digestivas, emolientes, béquicas, laxantes, balsâmicas, calmantes, tónicas, galactagogas e depurativas, os figos tantos podem ser consumidos crus, secos ou cozinhados. Os figos secos cozinhados em leite ou água são tradicionalmente empregues como expectorantes e emolientes. O látex branco, rico em amílase, protéase e enzimas, que as ramas e a casca dos figos contêm, é usado topicamente para eliminação de verrugas, calos e picadas de insectos, em particular das abelhas e das vespas, para além de ser o coalhante ideal, quer do leite, quer de bebidas vegetais (soja, arroz, aveia, etc), para o fabrico de queijo e iogurte. Deve, porém, ser usado com precaução, isto porque a sua causticidade pode causar dermatites de contacto e até mesmo queimaduras.

Pelo seu alto valor nutritivo, cerca de 350 calorias/100g, e digestibilidade, o figo adquire especial importância na dieta dos desportistas, dos convalescentes, das crianças, das grávidas e dos idosos, sendo genericamente prescrito em casos de astenia. Também são empregues no tratamento de inflamações internas e externas, problemas pulmonares, urinários e gastrointestinais. A infusão das folhas é utilizada como emenagogo e em casos de tosse, gripes e constipações. O xarope de figo é um laxante suave e eficaz, que não desgasta a flora intestinal, podendo ser tomado em todas as idades. Cozinhados juntamente com outros alimentos, os figos estimulam a produção de leite materno pela sua acção galactagoga.

A par do cultivo da vinha, da oliveira e da tamareira, os figos detinham um valor económico, cultural e alimentar de máxima importância para os Púnicos, em geral, e para os Cartagineses, em particular. Catão, o Censor, acérrimo apologista da destruição de Cartago, convenceu definitivamente o Senado Romano a precipitar a Terceira Guerra Púnica, mostrando a todos os presentes uma cesta de figos frescos, colhidos havia apenas três dias, o que demonstrava que o inimigo estava geograficamente muito próximo. Ou, como escreveu Eça de Queirós em 1893, na Gazeta de Notícias, a respeito da famigerada gula romana, Catão fez decidir a última guerra púnica, mostrando, aos olhos gulosos do Senado, a beleza e o tamanho dos figos de Cartago.

Compreendendo as particularidades reprodutivas das figueiras, que se ocultam dos olhos nus, torna-se mais fácil perceber o mito que as envolve nas mais diversas tradições africanas e euroasiáticas, que fizeram delas altares sagrados, ligados a cultos da fertilidade, mas também à morte e ao renascimento. O seu carácter dual e iniciático equipara-as ao salgueiro-chorão ou ao álamo-branco, e a riqueza dos seus frutos torna-as símbolo de abundância, tal como a vinha e a macieira. Deixados nas covas dos mortos e ofertados aos génios guardiães dos lugares, os figos marcam igualmente presença, física ou simbólica, nos nascimentos e nos ritos de passagem de diversas tribos centro-africanas. Vida e Morte tocam-se nos extremos deste Uroboros. Na Índia, associada à figueira surge-nos a dicotomia Vishnu/Shiva, deuses da Criação e da Destruição, respectivamente, ou, para sermos mais exactos, dois aspectos da Existência. 

Na Grécia Antiga, é pertença simultânea de Deméter e de Dionísio, da vida que os campos férteis evocam e da noite ancestral que guarda os segredos mais profundos da alma humana. No Antigo Egipto, a figueira assume um papel iniciático ligado à fecundidade da mente e do espírito. Abrir o figo é desvendar os mistérios da Criação, da ancestralidade que religa o Homem aos deuses que o engendraram. Por extensão, às folhas desta árvore era atribuído um poder divinatório que só os sicomantes sabiam interpretar. Associada à figueira anda a serpente, guardiã do conhecimento, protectora da realeza. Cleópatra, no intuito de se suicidar e escapar, assim, à humilhação de ser exibida nas ruas de Roma como troféu, terá pedido que lhe levassem, escondida numa cesta de figos, uma cobra-capelo, zoofania da deusa Uadjit, patrona do Baixo Egipto, cuja imagem surgia tutelarmente sob a forma de uma uraeus nas coroas dos faraós.

Com as folhas largas das figueiras cobriram-se Adão e Eva ao tomarem consciência da sua nudez. Escondem, assim, os órgãos sexuais, tal como a figueira esconde os seus, num paralelismo que não podemos ignorar.

Na Grécia Antiga, chamavam-se «sicofantes», reveladores dos figos, aos delatores dos contrabandistas de figos no Egeu, aos traidores e a quem proferisse acusações sem fundamento. Talvez por continuidade desde conceito, a figueira seja vista como a árvore em que Judas se enforcou após ter denunciado Jesus Cristo, revelando-o através de um beijo, o que uma vez mais nos remete para a expressão «revelar o Sykon», caluniar, acusar injustamente, entregar um inocente. 

Entre as tribos africanas do Chade, por exemplo, ainda hoje o látex da figueira é sacralizado nas práticas diárias por associação ao leite. As mulheres Kotoco não só consomem os figos quando estão a amamentar, como perfuram os ramos das figueiras para derramar o látex, num acto de puro mimetismo com a natureza. De facto, e retomando o tema medieval da Teoria das Assinaturas, a figueira apresenta, como acima se viu, propriedades galactagogas, que estimulam o leite materno, actividade bioquímica que a árvore parece querer assinalar mediante o seu látex branco e fluido.
   
Para os Sufi, a figueira e a oliveira apresentam-se como facetas complementares da Natureza, às quais os humanos estão ligados por força da personalidade e da evolução anímica. Nunca é de mais salientar que o simbolismo é uma faceta cerebral, a par da cognição, baseada num sistema de semelhanças e oposições que toma como base a experiência, a cultura e o próprio corpo, como afirma Victor Turner. O valor económico que estas espécies arbóreas sempre detiveram na vida destes povos, faz com que tenham sido desde cedo simbolizadas. Deste modo, misticismo e sobrevivência coexistem numa relação de reciprocidade, sem que se excluam mutuamente.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Folhado - Uma Caçada Pré-Histórica

Espécie: Viburnum tinus L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Dipsacales
Família: Adoxaceae
Sinonímia: Viburnum lauriforme Lam.
Nomes vulgares: Folhado, milfolhado, viburno, laurestim.
English name: Laurustinus.
Velho habitante dos bosques, companheiro de dedaleiras e de loureiros na humidade das galerias ripícolas, o folhado desempenhou outrora um papel utilitário no quotidiano do homem neo e calcolítico. Hoje em dia, não fossem os seus corimbos floridos, passaria anónimo por entre a demais vegetação das florestas europeias.

É frequente confundi-lo com o loureiro, mais exactamente com o louro-cerejo, por isso há quem o trate por «laurestim», embora não tenha o mesmo aroma, nem sequer sejam parentes. Este humilde microfanerófito perenifólio, que atinge no máximo 6m de altura, frequentador dos solos mediterrânicos silicícolas e calcícolas, encontra-se de norte a sul do país. Distinguimo-lo pela sua copa arredondada e densa, pelos seus ramos mais ou menos angulosos de ritidoma cinzento-acastanhado e liso, folhas opostas e decussadas, oblanceoladas e inteiras, largas, de limbo ondulado, algo coriáceo, verde mais claro e fracamente pubescente na página inferior. As suas flores rosadas organizam-se em corimbos de cerca de 10cm de diâmetro e surgem de Janeiro a Junho, com maior incidência nos meses de Abril e Maio. São hermafroditas, pentâmeras, possuem cinco estames alternos às pétalas. O seu fruto é uma drupa tóxica, ovóide e azulada, tornada negra no pico da maturação, no início do Outono. Apenas as drupas da espécie V. lentago são comestíveis.

Em tempos, os frutos do folhado, ricos em viburmina e taninos, foram usados como purgativo forte e vermífugo, mas acima de tudo como antidepressivo. A infusão das folhas era empregue como febrífugo, e o ritidoma como antiespasmódico em crises de asma.

Durante a Pré-história, sobretudo ao longo do Meso e do Neolítico, as hastes mais fortes e rectas do folhado serviam como cabos de lança, nos quais era encavada uma ponta lítica. Ötzi, o célebre corpo de um caçador do Neolítico Final, conservado no gelo alpino, tinha em sua posse várias lanças feitas com a madeira desta preciosa árvore.

Nos Açores, existe uma espécie afim, um endemismo, a V. treleasei, que infelizmente se encontra em vias de extinção.   

domingo, 30 de agosto de 2015

Alfarrobeira (Ceratonia siliqua) - O Seu Peso em Quilates

Espécie: Ceratonia siliqua L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Fabales
Família: Fabaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Alfarrobeira,
fava-rica, figueira-do-egipto.
English name: Carob.

«E João tinha as suas vestes em pele de camelo, com um cinto de couro em torno dos seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre» S. Mateus 3:4

Sendo escuras, alongadas e curvilíneas, crê-se que as vagens da alfarrobeira tenham sido traduzidas por «gafanhotos» pelos antigos Gregos. Com elas ter-se-á alimentado S. João Baptista no deserto da Judeia, antes do nascimento de Cristo, quando andava a pregar as mudanças vindouras. E não é de estranhar, uma vez que a alfarroba é um alimento bastante completo, prova disso é ter sido exaustivamente aproveitada pelos Malteses durante os racionamentos da II Grande Guerra, quando pouco mais havia para comer… 

Histórias e lendas não faltam a este mesofanerófito monóico, oriundo do Mediterrâneo e Ásia Menor, também conhecido por «figueira-do-egipto», cuja madeira preciosa é muito procurada por marceneiros para o fabrico de mobiliário e peças decorativas. De tronco baixo, cinza-acastanhado, e ramos por vezes avermelhados, apresenta folhas alternas e bipinadas, verde-escuras na página superior, divididas em folíolos elípticos, coriáceos e em número par. As flores, que surgem entre Julho e Outubro, ostentam longos estames (as masculinas) e pronunciados carpelos (as femininas). O fruto, uma vagem quase negra e indeiscente, a alfarroba, é o açúcar vegetal mais antigo de que há memória. O açúcar da alfarroba antecedeu em milénios o da beterraba e o da cana, motivo pelo qual a sua imagem era utilizada em escrita hieroglífica em representação do conceito de «doce».

Com excepção da raiz, tudo nesta árvore é aproveitado medicinalmente. Comecemos pelo ritidoma, que deve ser colhido no final do Inverno, antes do Equinócio Vernal, altura em que é mais facilmente destacável do tronco. Rico em taninos e fortemente adstringente, é decoctado e usado em casos de disenteria. A indústria das peles também dele se socorre para curtimento. As flores e as folhas possuem igualmente propriedades adstringente, para além de anti-sépticas estomáquicas e emolientes, empregues internamente no tratamento de estomatites, anginas (gargarejos) e diarreias; externamente são usadas sobre equimoses, acne, dermatites, ulcerações, hematomas e vulvovaginites. A infusão das vagens é béquica e adstringente, empregue em todo o género de doenças do foro respiratório. O xarope de alfarroba é conhecido como «ouro cipriota», e tanto serve de medicamento como de suplemento alimentar.

A polpa quando fresca torna-se laxante e emoliente, ideal em dietas de emagrecimento, uma vez que retarda a absorção de lípidos e açúcares, prolongado a sensação de saciedade e prevenindo a acumulação de colesterol nas artérias e a arteriosclerose, para além de funcionar como anti-emética e tratar problemas digestivos. Não deve, no entanto, ser consumida conjuntamente com medicação, isto porque também retarda a sua absorção, como ocorre no caso concreto da penicilina. Segundo um antigo uso popular, a polpa fresca pode ser empregue como anti-fúngica. 

A farinha de alfarroba, à qual tradição popular atribui propriedades afrodisíacas, possui um efeito adstringente e não pode se consumida por quem sofra de obstrução intestinal. Rica em açúcares, prótidos, lípidos, vitaminas, pectina, ácidos benzóico e fórmico, fósforo, ferro, fibras, taninos e mucilagem, contém três vezes mais cálcio que o leite e é um alimento adoçante, nutritivo e aperitivo. Mais doce que o cacau é, porém, muito menos calórico e não susceptível de provocar alergias, o que faz dela o sucedâneo perfeito para quem sofra de diabetes ou obesidade e queira desfrutar de um bolo de chocolate… 

As pequenas sementes esféricas, contidas nas vagens, guardam uma história curiosa e invulgar no reino da Natureza. Como é sabido, na Natureza não existem dois seres exactamente iguais; porém, no caso da alfarrobeira, esta lei parece ter tido pouco efeito, já que as sementes apresentam uma incrível regularidade de peso e tamanho, mesmo entre indivíduos diferentes e distantes geograficamente. Embora não sendo cópias absolutamente fiéis umas das outras, algo que só os sistemas modernos de pesagem puderam revelar, a aparente regularidade levou a que fossem utilizadas como unidades de peso desde longa data. Os Gregos chamavam-lhe Kerátion, por a forma da vagem se assemelhar a um corno; nós chamamos-lhe quilate. Uma semente de alfarroba equivale, assim, a um quilate, sistema de pesagem de metais e pedras preciosas que, hoje em dia, com as novas balanças de alta precisão, já dispensa o contributo directo da alfarrobeira.

A ligação desta árvore antiga aos povos mediterrânicos e meso-orientais está bem patente nas tradições religiosas judaicas e islâmicas, sendo um dos alimentos consumidos durante certas festividades, como o Tu Bishrat e a quadra do Ramadão, período de jejum durante o qual é costume beber-se sumo de alfarroba.

Gastronomicamente, para além do uso da farinha em doçaria, e das vagens na preparação de licores e vinhos, a goma pode ser utilizada como espessante em substituição do ovo. Torradas, as sementes são um sucedâneo do café, com um sabor muito semelhante e acre. 
Também a nível cosmético a farinha é procurada para o fabrico de cremes e pós de rosto. 

sábado, 29 de agosto de 2015

Álamos (Populus spp.) - As Árvores da Passagem

Espécie: Populus nigra L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Malpighiales
Família: Salicaceae
Sinonímia: Populus nigra L. ssp.
caudina (Tem.) Bugala;
Populus italica Moench.;
Populus nigra L. var. pubescens Parl.;
Polulus nigra L. var. betulifolia (Pursh.) Torr.
Nomes comuns: Álamo-negro,
choupo-negro, faia-preta,
amieiro-preto, olmo-negro.
Existe confusão com o choupo-tremedor,
de copa mais ampla, tronco acinzentado
 e folhas ligeiramente lobadas.
English name: Black poplar.

Guardiães do submundo, há no seu restolhar a mesma melodia aquática que conduz as barcas dos que partem deste mundo. 

O álamo, também vulgarmente chamado de «choupo», emblematiza a tristeza, o saudosismo e a memória. É tido como guardião do passado, do silêncio das lembranças que teimam em não partir.

Estes mesofanerófitos, de origem europeia e meso-asiática, albergam uma extensa mitologia ligada à morte e à transformação. Os Gregos antigos explicavam o surgimento do álamo-negro através do mito da catábase (descida infernal) de Hércules. Reza a lenda que o herói, ao descer ao submundo, terá protegido a cabeça com uma coroa de álamo-branco; ao ressurgir das trevas infernais, as páginas das folhas voltadas para baixo tinham permanecido brancas, ao passo que as voltadas para cima tinham enegrecido devido à fuligem do reino de Hades.

O álamo-branco, por seu turno, tinha já uma longa história, pois tratava-se de Leuce, transformada em árvore e colocada junto aos portões dos Infernos pelo deus Hades, que dela se havia enamorado. Também uma das Hespérides, filhas de Atlas, tinha sido transformada em álamo como castigo por ter permitido que Hércules roubasse as maçãs do conhecimento.
Os mitos não acabam aqui, várias foram as personagens femininas transformadas nestas árvores incríveis, às quais não ficamos indiferentes.

Comecemos pelo álamo-branco, um mesofanerórito que atinge entre quinze e vinte metros de altura e cujas folhas sub-ovais e lobadas apresentam a página inferior coberta por um indumento branco e suave. Nas árvores jovens, a copa é tendencialmente cónica e o ritidoma acha-se coberto por uma película branca com aberturas em forma de lonsango; à medida que a árvore cresce e envelhece, a copa torna-se ampla e o tronco vai perdendo a sua coloração branca e textura mais ou menos lisa, em prol de um ritidoma castanho-escuro, rugoso e fendido. Nos exemplares jovens e em crescimento, as folhas são mais recortadas e de maior dimensão.

O álamo-negro, apresenta folhas alternas, romboidais, de base plana ou angulosa, e verde em ambas as páginas. De ritidoma castanho-escuro, rugoso e marcado por manchas esbranquiçadas, pode atingir uma altura superior aos vinte e cinco metros, sendo que a copa, mais estreita, adquire a forma de uma coluna. Alguns exemplares, com a idade, assumem copas mais abertas por ramificação lateral. Sendo espécies dióicas, existem álamos femininos e masculinos. Os amentilhos (espigas pêndulas) masculinos são mais curtos, acinzentados e ostentam estames longos e vermelhos. As flores femininas formam amentilhos de maiores dimensões que os masculinos (cerca de 10 cm) e possuem uma coloração esverdeada. Os frutos são cápsulas providas de um penacho propício à dispersão anemocórica (por acção do vento).

Medicinalmente, as diferenças entre estas duas espécies são escassas, sendo, no entanto, preferido o álamo-negro, que por tradição tem sido mais utilizado. O chamado «popúleo» era um creme anti-hemorroidal feito com rebentos de álamo (negro) e toucinho. Com as folhas, depois de secas, faziam-se infusões diuréticas e sudoríferas, pelos seus efeitos depurativos. A casca interna e o alburno destas árvores já foram em tempos usados como farinha em épocas de escassez, a par dos rebentos. As folhas são muito ricas em vitamina C, possuem uma acção antiescorbútica e são também usadas no tratamento de litíases renais. 
Espécie: Populus alba L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Malpighiales
Família: Salicaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Álamo-braco,
choupo-branco,
álamo, choupo, álamo-alvar,
faia-branca, amieiro-branco.
English name: White poplar.
O ritidoma e os rebentos são ricos em resina, óleo essencial e heterósidos, como o salicósido, o populósido e o ácido salicílico, o princípio activo da aspirina. Possuem acção adstringente, diurética, vulnerária, analgésica, anti-hemorroidal, antipirética, emoliente, tónica, sudorífera, balsâmica, anti-séptica, digestiva, urinária e hepática. Podem ser empregues no tratamento de problemas hepáticos, digestivos, dores menstruais, dismenorreia, anorexia nervosa, gota, artrite, reumatismo e intoxicações alimentares. Externamente, quer sob a forma de cremes, tinturas, infusões, decocções ou emplastros, tratam problemas dermatológicos, suavizam e hidratam a pele seca, atenuam dores musculares e auxiliam na cicatrização feridas infectadas. Por inalação de vapores, os rebentos são utilizados no tratamento de bronquites, tuberculose, sinusites, gripes e constipações. As folhas, em particular, são usadas no tratamento de cáries dentárias e problemas ósseos. A decocção dos rebentos, à razão de 30g/litro, resulta num excelente tónico contra a queda de cabelo.

Os rebentos, em particular, eram recomendados por Plínio, o Velho, contra a gota e o reumatismo, e durante a Idade Média e Renascimento fizeram parte de famosas «poções das bruxas» e outras beberagens que tinham por intuito levar em viagem pelos esconsos do Inconsciente quem delas bebesse. 

Em tinturaria, tanto o ritidoma como os rebentos fornecem um pigmento amarelo, quer se trate da álamo-negro, do álamo-branco ou de qualquer outra variedade ou notho-espécie (híbrido).

A água da maceração dos rebentos é um aditivo que estimula o desenvolvimento de quaisquer plantas reproduzidas por estaca.

Na Grécia Antiga, durante os sacrifícios a Zeus, só o uso da madeira do álamo-branco era permitido, o que leva a pensar que a brancura que reveste o tronco desta árvore e o verso das suas folhas era vista com símbolo de pureza. Por outro lado, o maniqueísmo resultante desta coloração de luz e sombra remete-nos para a profunda dicotomia vida/morte e para o renascimento de que a própria natureza é paradigma. Não é, pois, de estranhar que as mitologias clássicas tenham feito ladear o Aqueronte, rio do submundo, de extensas colunatas de álamos. O carácter dual das suas folhas representa o dia e a noite, água e fogo, a passagem entre um estado e outro, entre o aquém e o além.   

Aderno-Bastardo (Rhamnus alaternus) - O Azevinho Estival


Espécie: Rhamnus alaternus L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Rhamnales
Família: Rhamnaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes comuns: Aderno-bastardo,
sanguinho-das-sebes, espinheiro-cerval.
English name: Italian buckthorn.

Quando o veraneio tinge de secura os matos e os bosques, ele lá permanece, verdejante e aceso pelas suas inúmeras bagas vermelhas, qual azevinho estival, um pronúncio de Outono ao sabor do Zéfiro de Agosto.  
O aderno-bastardo é um microfanerófito de origem mediterrânica, que pode atingir um porte arbóreo com cerca de cinco metros de altura. De ritidoma grisalho e tronco muito ramificado, esta ramnácea exibe folhas alternas e pecioladas, coriáceas, pequenas e ovadas, de margem finamente serrada e algo transparente quando vista à contra-luz, o que ajuda a distingui-la de outras espécies que se lhe assemelham. As flores, de uma tonalidade indefinida entre o verde e o amarelo, surgem em rácimos axiais durante toda a Primavera, dando depois lugar aos frutos, pequenas bagas tóxicas, esféricas e carnudas, que se tornam completamente vermelhas quando maduras. 
A nível medicinal, a parte mais utilizada é o ritidoma, usado em decocção como laxante/purgante, hipotensivo e no tratamento de problemas respiratórios, também empregue em caso de litíases renais e como tónico circulatório. Já as folhas, pelo contrário, são fortemente adstringentes pela grande percentagem de tanino que contêm. São empregues contra o colesterol e em gargarejos para curar inflamações da garganta e da boca. Externamente, a decocção das folhas é usada em feridas pelo seu poder vulnerário.
Embora os frutos sejam tóxicos para os humanos, é frequente encontrar pássaros frugívoros a desfrutarem desta iguaria estival. As bagas contêm elevados níveis de antraquinonas, flavonóides e pectina. Embora sejam preteridos a favor do ritidoma, podem ser secos e usados em xaropes como purgantes, ou em óleos de massagem contra as dores de cabeça. O seu doseamento para uso interno requer grande cuidado, uma vez que o seu poder laxante é forte pode causar hemorragias intestinais. 
Não só os bosques o aderno-bastardo ilumina com as suas bagas cor-de-fogo. Este arbusto surge como iluminador da alma e da consciência na Epopeia de Gilgamesh, anterior à Bíblia, na qual é narrada a cosmogonia persa, muito semelhante à bíblica, uma vez que a inspirou. Os sacerdotes persas comiam das suas bagas para limparem e purificarem o corpo antes de um ritual.
Na Europa mediterrânica e ocidental, era igualmente tido como sagrado pelos sacerdotes celtas, que usavam os seus ramos em defumações de apelo aos espíritos. Na Irlanda, onde se lhe dava o nome de «espinheiro-de-são-patrício», vários eram os perigos que a sua destruição poderia evocar, desde a perda dos bens à da própria vida.
Na Península Ibérica esta ramnácea detinha um carácter apotropaico, motivo pelo qual a sua madeira era usada no fabrico de utensílios para bater a manteiga, produto sensível que, à semelhança do queijo, desde sempre se acreditou que facilmente seria alvo das artes enganadoras de fadas, bruxas e duendes. Da mesma forma eram usadas as bagas para repelir as energias malfazejas através dos mais variados rituais de purificação.